31.12.10

EM 2012!



A todos os amigos e amigas, familiares, mestres, alunos, meu desejo de que o ano novo seja pleno de inspiração e aventura, um mergulho na vida e em nós mesmos, em busca de iluminação e de tornar este mundo um lugar melhor, que isso é sempre possível, basta querer.

19.10.09

ALGUMA POESIA

Poemas catalogados pela Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro (copyright do autor). Proibida a reprodução sem prévia autorização

Abditae causae

Fraco mortal, que aspiras às sutis essências,
ao círculo das formas, ser das aparências,
qual cristalina água, a perscrutar o seio
do que há intangível, à matéria em meio,
estás cansado e choras (só te embala o vento
o ecoar da ampulheta num abismo lento)
e, cerzindo a tristeza triplos espantalhos,
ousas vibrar ainda o alaúde em atalhos.
Porque por mais que busques a tudo o silêncio
(o silêncio é cantar para os astros suspensos,
a música inaudível das esferas vastas –
tem-se a impressão mas nunca o som e a nota casta),
cantando seguirás, mesmo em padecimento
de, na verdade, não haver ouvido atento.
E o entardecer se expande em fogo na floresta;
há vária explicação e, também, vária festa:
é bom ouvir às árvores e aos animais,
às estéreis montanhas que exsudam cristais,
aos gemidos dos ventos adensando a trama
das águas nos rios, de verdes bosques às ramas;
como cabrito atado à mãe e à dura teta,
se entretém os infantes co’ agrestes cornetas...
toda a natura segue a prumo seus alvitres,
somente o ser pensante e o poeta, estes biltres,
apartam-se de tudo, buscando esse tudo –
e responde o universo só um grito mudo.
São necessários sismos à rija estrutura,
conhecidos venenos a aprestar as curas;
assim o canto irrompe e o solitário vate
encetará co’a própria lira um vão combate
(oleiro do vazio, em sonhos se desdobra,
que decerto é ilusão alquimia e grã obra;
por mais difícil que seja, crê na aventura –
que a razão é a loucura da própria loucura);
porém à força mesmo de enformar os ventos
mostrarás quão profundos são os teus lamentos.

As palavras

As palavras, imunes à lembrança,
flutuam na noite de coral,
inquietas hamadríades ao sabor dos ventos...
Escorregam pelos canteiros,
despem-se em arpejos vegetais,
borboleteiam a luz, antecipam as mariposas
e se deixam embalar nas ondas, turmalinas.
Na água branca, no cisne incolor,
por trás da paisagem, como um poema de dor.
E lhes foge apenas a esfíngica morte
no grito de animal inventado,
fabular e inominável.
Mas são delas os lampiões apagados.

Enquanto eu lia um conto de ar

Enquanto eu lia um conto de ar,
tecias auroras, desertos em cascatas
e entretias alísios com trenos tão suaves
que nem os ventos se lembravam.
Eram segredos nossos dias,
lanternas de cantos noturnos,
graves e estranhos...
O céu à terra não se ligava
e o vento, seu louco menino de ar,
ainda nomos não ensaiava.
Fátua espada, faca temperada na corrente,
divino farol, que ao mar me lançava,
amando de assassinas ondas forjar.

Do silêncio

O silêncio percorre colunas e portais
criança nua, desdentada
sombra sem passo que a cada passo
aclara com arte um enigma.
O silêncio passou pela janela, clarim,
anunciando lutas em breve,
grandes batalhas contra jardins.
O silêncio passa novamente,
não me contenho, grito.
- Para dentro da árvore,
vamos para dentro da árvore!
E fui com o silêncio para dentro da árvore.

Paradoxo

Amo e desprezo a vida ao mesmo tempo
e, como o nauta, irmão da tempestade,
abjuro as ondas, escarneço o vento,
irmanado à ciclópica vontade.

Desconheço o futuro e meu passado
é onda, brisa, fumo, sonho altivo.
Mas houve tanto instante ensolarado
e tanta formosura que ainda vivo!

E nesta dupla sorte eu venço os dias;
ora aspiro à luz, ora indago a treva,
buscando unir opostas harmonias.

Em amor e desprezo a alma se inflama
e, qual aparição, ao céu se eleva
como a calçada verte o céu na lama.

Da vida dos pássaros

Quando o tetraédrico sol
(cuja majestade de pão e peixe,
disseminada até pela escuridão,
voa com os corvos)
é ocultado por nuvens de pássaros
e a tarde desbota, imagem antiga,
doce é caminhar na relva úmida
pisando serpentes com pés descalços.
Ciosos de chuva,
calendários entortam árvores,
alagados e ervaçais,
numa atmosfera que a água solidifica.
Saltam visões das crateras abertas;
arcanjos em carvalhos, florais cornamusas,
arbóreos tormentos, balés de teias negras.
Sobre a gruta anil está o unicórnio
e, mais acima, a gralha que lhe roubará os olhos.

De Safos nos abismos

Lançam-se os dias
como Safos nos abismos.
É bom morrer com a noite,
a noite total, que perfumará sua chaga.
Morremos noites seguidas e não só
empalados, enterrados vivos, crucificados.
Todas as tardes,
quando a corda do oceano
narra sua epopéia antiga
e as abelhas expectoram melíferos ninhos,
esfaqueio a alma das constelações
e morro como a cítara de um dia.

Ego vitro

Falo-te de fantasmas e visões,
dos queixumes do vento nas vidraças,
do estranho frio e as vítreas sensações
dessas vozes que vagam, sempre lassas.

Às vezes trago um frio de corrimões
na alma! um vento invernal que vem e passa
e me faz ser – espectro das monções –
canção gelada que espelhos embaça.

No cristal e no vidro há todo um risco,
uma sereia fria que invita a mente
a estados de alma lânguidos, dormentes,

um perder-se ante o olhar do basilisco.
Em frente ao espelho, eu tenho me despido
de reflexo e me vejo feito vidro.

Invernal

Suavemente, bem suavemente,
açoita o vento as rúbidas paisagens;
cola-se o rio, o fruto está doente
e a andorinha enrijece nas ramagens.

O inverno enfim chegou, fosforescente,
gelando as flores, tumbas e visagens,
gelando as flores, vítreas e dormentes,
cristal em pó, reluz como miragens.

Da paisagem monótona o aprumo
me fez rejubilar, ditou meu rumo
entre os brancos jardins e alvas latadas.

Não se vê onde acaba a neve e surge
a palidez marmórea que refulge
a minha sombra negra nas calçadas.

Disse a flor

Disse a flor,
pendendo o abismo:
“Destrói!”, canta o vento.
“Refulge!”, canta a aurora.
“Fenece!”, bradam os campos.
“Explica!”, diz o homem.
E o pesadelo dos homens
é a alegria dos animais.



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bosquesdamoira@yahoo.com.br

4.10.09

PROJETO MUSICAL BOSQUES DA MOIRA

O projeto musical Bosques da Moira busca unir poesia e rock'n'roll clássico / progressivo / stoner numa espécie de sarau poético eletrificado. O grupo conta com dois cd's-demo ("Terza Rima" e "Pretexto de luar"), já passou por diversas formações e a mais recente tem cerca de um ano. A formação atual: André de Sena (guitarras, vocal), Washington "The Ax" (contrabaixo, vocal de apoio) e Ítalo Flaubert (bateria). Há ainda participações esporádicas de poetas e prosadores que lêem seus textos ao som ora visceral, ora evanescente do grupo.














CD 1 - TERZA RIMA (2005)

(1. Lobo, aos olhos do ocaso)
(2. Sotiripse ed ogof)
(3. O céu, o universo, a chuva)
(4. Causa mortis)
(5. O Uraeus - instr.)
(6. Com a cabeça decepada)

₢copyright by André de Sena (direitos reservados)
André de Sena (guitarras, vocal)
Cleidson Araújo (bateria)
Marcos Alexandre (baixo)
Paulo Pellee (teclados)















CD 2 - PRETEXTO DE LUAR (Música para violão)(2007)

(1. Pretexto de Luar n°1)
(2. Pretexto de Luar n°2)
(3. Pretexto de Luar n°3)
(4. Pretexto de Luar n°4)
(5. Pretexto de Luar n°5)
(6. Pretexto de Luar n°6)

₢copyright by André de Sena (direitos reservados)
André de Sena (violão)
Paulo Pellee (teclados)